Animação cultural por Vilém Flusser
A narrativa é contada pelo ponto de vista de uma mesa que quer iniciar uma revolução em busca de seus direitos como objeto, tendo em vista a sua relevância Por meio desse lado sarcástico, Flusser crítica a inversão da relação homem-objeto. Essa mudança faz com que o objeto deixe de ter uma função prática e clara e passe a ser criado para o consumo exagerado e descontrolado das pessoas, isto é, sem que elas realmente necessitem daquilo ou entendam a funcionalidade do produto. Essa transformação faz com que os indivíduos deixam de ser criadores diretos e passem a ser consumidores de objetos prontos.
Além disso, ele destaca que, na sociedade moderna, a cultura e a forma de pensar das pessoas está cada vez mais moldada pelas tecnologias e os aparelhos de comunicação. Por isso, a personagem mesa coloca como um dos seus objetivos principais para que sua revolução seja exitosa: a desvalorização da cultura. A escolha feita pelo autor do objeto “mesa” como líder da revolução não é ao acaso. A “mesa” representa um objeto cotidiano que organiza e condiciona as pessoas em sua volta. O móvel simboliza a cultura que perde seu valor quando deixa de ser um um processo criativo e passa a ser uma estrutura rígida. o animador cultural deve “virar a mesa” e romper com esses hábitos cristalizados.
Apesar de ter sido redigido e publicado no ano de 1971, o texto aborda temáticas debatidos na contemporaneidade. De forma análoga ao texto, o documentário da Netflix “o Dilema das Redes”, lançado em 2020, retrata a manipulação das mídias sociais e como elas contribuem para o comportamento das pessoas. Apesar de quase 50 anos entre as narrativas, a mensagem que eles querem comunicar é semelhante. A leitura de “Animação Cultural” parece projetar-se para além do seu tempo, já que o autor escreve como se estivesse vivendo o século XXI. Assim, antecipa dilemas e problemas que hoje são centrais.
Dessa forma, Vilém Flusser evidência que a cultura não deve ser algo fixo, mas um processo que se reinventa na relação entre homem, objeto e tecnologia. Ao defender a criatividade coletiva, ele convida o leitor a questionar e participar ativamente da cultura e parar de ser instrumento de reprodução.
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